sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Carta de um jornalista do Estado de Minas aos colegas de redação

Em meio a todos os problemas que envolvem os funcionários do jornal Estado de Minas, um dos trabalhadores do veículo, que preferiu manter o anonimato, escreveu uma emocionante carta para seus colegas de redação. Confiram!
Aos meus jovens irmãos de redação,
neste momento em que o vento parece soprar com mais força, meu coração pede para lhes dizer que, vocês – ao contrário de mim – que estão num começo de carreira, que buscam pelo espaço na profissão que escolheram, me surpreendem com o vigor com que lutam para honrá-la e dignificá-la.
No dia a dia, vocês me conhecem pelas piadas prontas para disfarçar os problemas do cotidiano, pela risada fácil diante das situações trágicas, para fingir uma insensibilidade, tentando driblar os avessos da vida.
Não vou chamá-los de companheiros, chavão da lutas trabalhistas. Nem de colegas de trabalho e amigos; nossa convivência diária nos credencia a ser tratados como irmãos.
A razão de escrever essa mensagem aberta, é para destacar a dignidade, a força, que tenho encontrado em vocês mais jovens. Num mercado tão restrito, não se intimidaram diante da pressão de uma luta pelos nossos direitos, mesmos certos de que, ao contrário de conquistas, podem esbarrar no fim da oportunidade de construir uma carreira no jornalismo.
Digo isso, pois próximo de completar três décadas de formado em jornalismo, dos quais 22 anos eu tive a maravilhosa oportunidade de trabalhar no Estado de Minas (Diário da Tarde), casa a qual eu aprendi amar e respeitar, oferecendo o máximo que pude, me surpreendo com o firme caráter de vocês de não tombarem frente aos anseios para se manterem no mercado, abrindo mão de uma luta legítima pelos nossos direitos.
Quero aqui dizer que, mais do que uma luta por direitos específicos de um grupo de jornalistas do Estado de Minas, vocês – talvez menos que uma centena de funcionários – estão empunhado a espada da Justiça em favor de centenas de outros empregados do grupo. No eco de suas vozes, eles têm a expressão de seus sentimentos reprimidos.
Nada demais para quem escolheu a profissão de jornalista, pois estão acostumados a serem porta-vozes da sociedade, ainda que em meio à lama de rejeitos de Mariana ou as bombas da Polícia Militar contra manifestantes.
Me orgulho de ser parte dessa história. Quando colocam em risco suas carreiras, não barganham a já comprometida dignidade de nossa profissão. Lutam pelo jornalismo de Belo Horizonte, Minas Gerais e Brasil. Desde Gilmar Mendes, estamos vivendo dias de desvalorização profissional.
Nada contra os garçons, mas nossa luta vem exaltar que não servimos nossa qualidade profissional em bandejas e nem recebemos gorjetas por nosso trabalho.
Se a direção dos Diários Associados escolher a retaliação, ao contrário da valorização de vocês, optarão pelo caminho simples: “escolher garçons transvestidos de jornalistas para continuarem servindo de boca fechada”.
E, ainda que o mercado não se abra a todos, profissionais sérios e dedicados como vocês, mesmo longe do jornalismo, terão outras oportunidades e trarão em suas histórias a coragem com a qual lutam e não esmorecem no campo de batalha.
Alguns já devem ter escutado histórias que conto dos antigos companheiros que conheci nesta redação, quando, eu um jovem como vocês.
Uma delas, que nunca vou esquecer, é a do editor-chefe da fotografia que, quando pediram a ele três nomes de sua equipe para reduzir o quadro de pessoal, respondeu: “olha, não posso apresentar mais do que um nome, a não ser o meu.” E pensei que pessoas assim já não existiam, mas vocês me surpreenderam.
Obrigado a vocês por avivar em mim a crença em dias melhores para meu filho. Agora sei que nesta geração há quem não tem que sacrificar interesses individuais em prol da coletividade.
Um abraço; “não cansem de fazer o que é correto”.

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