quarta-feira, 27 de março de 2013

SISTEMA CARCERÁRIO

O preço da honestidade

Diretora declara guerra à corrupção
em presídio e é assassinada

Marcelo Carneiro


Aos 46 anos, a advogada Sidneya de Jesus ostentava em seu currículo uma façanha: uma administração impecável no comando do presídio de segurança máxima Bangu 1, fortaleza inexpugnável que ganhou fama como uma espécie de Alcatraz brasileira. Sob sua chefia desde 1996, Bangu 1 não teve sequer um registro de fuga, rebelião ou denúncia de tortura contra os presos. Com salário de 1 150 reais por mês e dez anos no serviço público, sempre como agente penitenciária, a advogada também exibia um ficha limpíssima. Era tão discreta que nem seus vizinhos imaginavam que aquela mulher introvertida e de fala mansa tinha nas mãos o destino dos mais perigosos traficantes e seqüestradores do Rio de Janeiro. Na segunda-feira passada, essa biografia foi brutalmente interrompida. Abordada por dois homens quando chegava em casa, na Ilha do Governador, bairro de classe média do Rio, Sidneya foi morta a sangue frio com três tiros, um no rosto e dois no pescoço.
Desde as primeiras horas após o crime, a cúpula da Secretaria de Segurança Pública do Rio — que assumiu diretamente a apuração do caso — trabalha em uma mesma linha de investigação. Sidneya teria sido morta porque decidiu enfrentar um assunto explosivo: a teia de corrupção que permite aos bandidos do Rio uma série de privilégios, entre eles o de continuar comandando seus negócios mesmo depois de encarcerados. Sidneya ganhou fama como diretora de presídio no estilo durão. Era a única mulher, entre os trinta chefes de penitenciárias do Rio, a comandar uma unidade de segurança máxima. Abominava qualquer tipo de violência contra os presos, mas fazia de tudo para que a temporada de um bandido na cadeia não fosse nem de longe parecida com uma colônia de férias. Recentemente, suspendeu os jogos de futebol dos detentos, como castigo por atos de indisciplina. Na semana anterior ao crime, quando representantes da ONU em visita a presídios brasileiros lhe perguntaram se não estava violando um direito dos presos, foi direta. “Eu sigo a lei. O preso tem direito a um banho de sol por dia, mas o futebol é benefício”, afirmou ela. “Cortei o benefício.” Os representantes concordaram com sua argumentação.
A diretora, porém, não limitou sua linha dura aos presos. Estendeu o regime de tolerância zero aos agentes penitenciários, rompendo um pacto de corporativismo que sempre ajudou a semear a corrupção nos presídios brasileiros. Uma de suas decisões mais polêmicas foi pôr fim ao uso de telefone celular por parte dos detentos, uma prática comum nas cadeias cariocas. Sidneya sabia que estava mexendo em um vespeiro. Presos só têm celular porque há agentes penitenciários sendo corrompidos para fazer vista grossa. A diretora também proibiu que os advogados dos bandidos entrassem nas galerias portando o aparelho. Quanto aos agentes penitenciários, exigiu que circulassem pelo presídio apenas com o uniforme, deixando do lado de fora todos os seus pertences. Mesmo com tanto rigor, não conseguia impedir de todo, é claro, a entrada de drogas, armas de fogo e até granadas no presídio. As recentes medidas de fiscalização, porém, representaram um baque no esquema alimentado principalmente pelo suborno. A Secretaria de Segurança Pública do Rio não tem dúvida de que a morte da diretora foi uma operação arquitetada por traficantes de Bangu 1. Mas sabe, também, que entre os suspeitos do assassinato se encontram policiais, ex-policiais e agentes penitenciários.
Divorciada e morando com uma irmã e um filho adolescente, Sidneya tentava levar uma vida normal, apesar de ter noção do perigo que o cargo de diretor de penitenciária representava. Em casa, evitava falar sobre o trabalho em Bangu 1. Já tinha, inclusive, prometido ao filho que pediria para sair da função de chefia. Nos últimos meses, a diretora era permanentemente acompanhada por seguranças. No dia do crime, porém, dispensou o agente penitenciário que sempre a escoltava, por um motivo prosaico. Ele morava distante de sua casa e ela decidiu deixá-lo sair mais cedo. Foi um erro fatal. Sidneya foi morta após abrir o portão do prédio onde morava.
Dias intermináveis — Bangu 1 é o pior dos pesadelos para qualquer condenado à prisão. Das nove construções que abrigam 8.000 detentos e formam o complexo penitenciário de Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio, a penitenciária de segurança máxima é a mais imponente. Tudo ali foi construído sob medida para mostrar ao preso que seus dias parecerão intermináveis, da cama de concreto coberta por um finíssimo colchonete ao monocórdio tom acinzentado que reveste todas as paredes. A penitenciária tem vagas para apenas 48 presos, divididos em quatro galerias com doze celas bastante limpas em cada uma. Não existe comunicação entre as galerias, para evitar que grupos rivais se encontrem. O único momento livre é o do banho de sol, mas até nessa hora Bangu 1 é diferente dos outros presídios. Não há um pátio onde se possa dar uma caminhada de 100 metros. O passeio é feito dentro da própria galeria e a luz entra pelo teto de um solário. Durante a manhã, o calor é escaldante, e à noite o frio é tanto que Bangu chega a registrar algumas das mais baixas temperaturas da cidade.
Em Bangu 1 não há o que fazer além de esperar o dia da liberdade. Os presos não trabalham nem estudam e passam a maior parte do tempo dentro das celas. É a rotina, aliás, de todas as penitenciárias de segurança máxima. Esse modelo de confinamento é uma prática em desuso mundo afora, pois não ressocializa os detentos. Bangu 1 possui muros de 7 metros de altura, cercas de arame com fios cortantes, câmaras de vídeo nas entradas das galerias e detectores de metais impedem qualquer tentativa de fuga. Nos últimos meses, até a visita dos advogados foi restringida. Existem levantamentos que comprovam que determinados presos chegavam a ter mais de vinte advogados. A maioria, porém, jamais havia defendido o bandido em algum processo. Atuavam apenas como emissários. Outros detentos recebiam até cinco visitas diárias de “advogados” diferentes.
Além de dar um basta às mordomias, Sidneya também colaborou, informalmente, com o Centro de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (Cisp). Durante muito tempo, a diretora forneceu ao centro informações sobre as ações que os bandidos comandavam de dentro de Bangu 1, pelos celulares. A polícia estuda a possibilidade de essa colaboração ter sido descoberta recentemente pelos traficantes. O desempenho de Sidneya à frente do presídio atraiu a ira de bandidos como Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, que controlou o tráfico de drogas no complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona suburbana do Rio e uma das áreas mais violentas da cidade. Em outra galeria, cumpre pena Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, traficante do Morro Dona Marta, na Zona Sul, que ganhou as manchetes de jornais ao ter revelada sua amizade com o cineasta João Moreira Salles. A polícia ainda apontou outro preso de Bangu 1, o seqüestrador Cláudio Roberto Pacheco, o Sussuquinha, como um dos principais suspeitos pela morte de Sidneya. Sussuquinha teve uma fuga frustrada pela diretora. Espera-se, agora, que a execução covarde da agente penitenciária não signifique o fim da linha dura para essa turma.
A vida em segurança máxima
O presídio Laércio da Costa Pellegrino é o mais rigoroso entre os nove que compõem o complexo penitenciário de Bangu, que abriga cerca de 8 000 detentos. Por ser o primeiro construído sob os moldes de uma penitenciária de segurança máxima, ganhou o apelido de Bangu 1.
• Inaugurado em 1988, o presídio só registrou uma fuga. Nunca houve rebelião.
• A capacidade é para apenas 48 presos, divididos em quatro galerias que não se comunicam.
• Estão lá alguns dos bandidos mais perigosos do Rio, como os traficantes Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, e Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP.
• O muro tem 7 metros de altura e a porta de uma galeria só é aberta depois que a anterior é fechada.
• Há dispositivos de segurança como câmaras nas entradas das galerias e detectores de metais. Não é permitida a circulação de telefone celular, nem mesmo os dos advogados dos presos.


FONTE: http://veja.abril.com.br/idade/educacao/pesquise/carcerario/1666.html

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