segunda-feira, 18 de março de 2013

49 anos do Golpe Militar.

De operário a deputado cassado e torturado
Documentos do Arquivo Público registram a história de Clodsmidt Riani, um dos três deputados varridos da Assembleia de Minas durante a ditadura militar
Publicado no Jornal OTEMPO em 17/03/2013

GUSTAVO PRADO
Ata publicada em 1998 registrou sessão em que deputados foram cassados
Aos 92 anos e com a mesma chama do idealismo dos anos 60, o ex-deputado estadual Clodsmidt Riani ainda não consegue entender os reais motivos que o levaram a perder o seu mandato na Assembleia Legislativa de Minas, em 1964. A memória, praticamente intacta, também não é capaz de revelar as razões que o levaram a passar sete anos na prisão. O ex-parlamentar é uma das vítimas da repressão que dominou o país naquele período e um dos personagens retratados por O TEMPO na série especial sobre o golpe militar e os arquivos da ditadura.

Riani foi um dos três deputados mineiros cassados em abril de 1964 - logo após a tomada do governo federal pelos militares - juntamente com Sinval Bambirra e José Gomes Pimenta, conhecido como Dazinho. Com votação unânime, a Casa determinou que os três perdessem seus mandatos. Eles foram acusados de quebra de decoro, subversão e filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que estava na clandestinidade na época.

Controlar o Legislativo era uma das principais estratégias dos militares para preservar o poder central. Assim como o Congresso Nacional, as Assembleias estaduais também sofreram vigilância durante a ditadura.

Os documentos que mostram o peso dos anos de chumbo sobre o Parlamento mineiro faz parte do amplo acervo mantido e disponibilizado pelo Arquivo Público de Minas. Eles revelam que, assim como os militantes envolvidos na luta e na resistência contra a repressão, os três deputados foram acompanhados de perto pelo regime.

Os três parlamentares tinham origem operária e eram sindicalistas. Assim como Riani, Dazinho e Bambirra também acabaram presos. Em um dos documentos do Arquivo Público de Minas Gerais, de 1961, Riani, ao lado de outros militantes, foi denunciado à polícia por distribuir material impresso.

Segundo as autoridades da época, "tal campanha visa principalmente levantar a opinião pública contra a fórmula de governo atualmente em vigor no Brasil".

O ex-deputado nasceu em Rio Casca, na Zona da Mata. Trabalhou como operário eletricista em Juiz de Fora, onde se filiou ao PTB. Riani presidiu a CNTI e o CGTB, duas das mais importantes entidades sindicais da época.
Decoro
Motivos da cassação ficaram escondidos por três décadas
Por exatos 34 anos, as atas secretas das votações na Assembleia Legislativa que cassaram os mandatos dos deputados Riani, Bambirra e Dazinho se mantiveram em absoluto sigilo. Só em 1998, o teor delas foi aberto, juntamente com o de outras atas das reuniões de abril de 1964. A lei que liberou os arquivos, nos anos 90, foi gestada na Comissão de Direitos Humanos, então presidida pelo deputado Durval Ângelo.

"Os deputados Sinval Bambirra, José Gomes Pimenta e Clodsmidt Riani são reconhecidamente comunistas, conforme comprovam, além de outros documentos, os pronunciamentos que fizeram nesta Assembleia (...) pronunciamentos, esses atentatórios ao decoro parlamentar", dizia o registro, assinado pelo deputado Athos Vieira e por outros. O documento pedia a cassação dos mandatos "para a própria sobrevivência de nosso regime".

Após deixar a prisão, Riani elegeu-se novamente deputado, em 1982. Mesmo assim, não teve acesso aos arquivos. "Não ia perder tempo com isso. Eles ficaram até com vergonha de mim lá. Tive uma votação de quase 30 mil votos. Eles iam falar o que de mim?" (GP)
FOTO: ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO
Na foto dos anos 60, Riani é escoltado por militares no momento de sua prisão
Entendimento
"Chamavam a gente de comunista, mas eu não era. Pegaram a gente porque éramos da classe operária."

"Entrei na política pela questão sindical, lutando pelo interesse nosso."
"Valeu a pena. Fiz tudo com muito gosto."

"A luta ainda continua, com muitos sindicatos que, hoje, não funcionam. A gente estudava e reivindicava os nossos direitos."

Clodsmidt Riani
Ex-deputado estadual
Ex- parlamentares também sofreram agressões
Além da prisão e da cassação de seus mandatos, os ex-deputados Riani, Bambirra e Dazinho também foram vítimas de violência física durante a ditadura. Riani atesta ter sido torturado uma vez e presenciado seus colegas sofrerem agressões de militares.

"Quando voltei a Juiz de Fora, me apresentei à polícia. Não fugi, não fui para lugar nenhum. Me pediram para colaborar. Queriam que eu assinasse um documento. O conteúdo dele era que o Jango e o Brizola eram comunistas", disse. Após ter se negado a assinar o tal documento, o ex-deputado alegou ter sido conduzido para outra parte do mesmo quartel.

"Me levaram para um outro lugar, onde tinha uma fila de soldados, uns 12, todos armados e com aquele ‘botinão’. Aí, mandaram eu ficar firme e começaram a chutar o meu tornozelo e depois me deram socos nos rins. Depois, me levaram para assinar uns documentos, onde já tinha mais uns 30 presos", contou.

Em outra oportunidade, Riani conta que viu seus companheiros serem torturados, quando cada um deles foi levado para uma cela em separado. "Espancaram o Bambirra até estourarem os tímpanos dele.

Quando ele saiu, estava tudo ensanguentado. Depois, pegaram o Dazinho, mas já não foi tanto assim". Ele afirma que, naquela oportunidade, não foi agredido, pois, como líder sindical, mantinha relações com autoridades do movimento trabalhista e que se opunham ao regime. (GP)

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